XC RUN BÚZIOS: UMA CORRIDA CASCA GROSSA!

Amigo corredor,

No ano passado, participei da XC Run, etapa de Búzios. Embora tenha feito a corrida em dupla e percorrido “apenas” metade dos 42k da prova, posso afirmar sem medo nenhum que é uma prova duríssima, casca grossa mesmo! Arrisco-me a dizer que sofri tanto quanto na Maratona do Rio que fiz neste mesmo ano, mesmo fazendo somente 21k. Foi muito mais difícil do que eu imaginava!

Fomos para lá (eu e minha Duda) na quinta à noite. Nosso intuito era curtir um pouco a praia e a cidade no dia anterior, e pegar o kit com calma. Embora o tempo não estivesse muito firme, conseguimos pegar uma praia e dar um passeio agradável pelo centro e rua das pedras.

Como iria fazer apenas o segundo trecho da prova, não precisei acordar tão cedo. Levantei-me às 7hs, para fazer tudo com calma.  Estávamos hospedados na casa da nossa tia Leila em Manguinhos que ficava a uns 10 minutos de carro do local da minha largada na Praia de Tucuns.

Acontece que este gênio que vos escreve, esqueceu-se de levar o carregador do celular para a viagem. Acontece que este mesmo gênio foi carregar o celular no carro e trancou o veículo com a chave dentro. Acontece que meu dia começou péssimo e o psicológico foi para o beleléu!

Por causa disso, acabei tendo que sair mais cedo de casa, pois teria que me virar pegando uma van para minha largada. Obviamente que quando estamos com a cabeça a mil e com pressa, sempre nos esquecemos de alguma coisa. Meu gel carboidrato e minha novalgina ficaram pelo meio do caminho.

Nesse momento, abro um parêntese para explicar o porquê da novalgina. Vinha de uma sinusite braba, e ainda estava sob efeitos de antibióticos e outros remédios. Esse fato obviamente prejudicou a fase final dos meus treinos e me deixou menos confiante. Não estava 100% para a prova.

Surpreendentemente, a van passou muito rápido e cheguei bem cedo ao local da minha largada. Isso acabou não sendo muito bom, pois tive que esperar muito e a ansiedade só aumentava. Estava sem telefone (preso no carro) e não tinha como saber se a Duda iria conseguir achar um chaveiro a tempo de me buscar na chegada.

Por volta das 9:10hs, liguei meu garmin e me posicionei na zona de transição para esperar minha dupla, o bravo guerreiro Erivan!

Por sinal, aí percebi o primeiro ponto negativo da organização da prova. A zona de transição estava uma bagunça! Os organizadores não conseguiram fazer algo minimamente descente e claro para os atletas. A falta de educação das pessoas (atletas, equipes e público em geral) contribuiu para esse caos. Mas, vida que segue!

Às 9:30hs, vi meu amigo Luiz Cláudio, o Coelho, passar. Ele estava fazendo a prova completa e sua cara de desgaste ainda na metade do seu caminho era aparente. Foi ele que me ajudou muito na minha primeira maratona esse ano. Embora tivesse feito um mês antes o DesaFrio Urubici de 52km, fez questão de correr a maratona toda junto comigo para me ajudar e dar força.  Além disso, fizemos alguns treinos para a prova de Búzios em parceria, e ele sempre me ajudava me puxando nas horas certas.  Um grande parceiro!

Dez minutos depois, às 9:40hs, chegou a minha dupla. Erivan chegou sorrindo e sua fisionomia era muito boa. Nos abraçamos, ele passou a pulseira pra mim e me desejou boa sorte.

Ah, e ainda teve tempo para uma selfie!

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Selfie com o amigo e dupla Erivan. A batalha esta terminando para ele, e apenas começando para mim.

Comecei minha corrida sem muito confiança e sabendo que seria uma tarefa dura. Logo nos primeiros 400 metros, veio uma subida bem inclinada, porém nada do que eu não estava acostumado a treinar. Continuei trotando, sem andar, para não perder o ritmo. Pura ilusão, pois o que me esperava poucos metros à frente era assustador.

Uma verdadeira pirambeira! Subíamos todos em fila, com a ajuda das mãos para não cairmos. A lama que se acumulou pela chuva da noite anterior tornou o cenário ainda mais cruel. O pace? Cerca de 30 pra 1! Foram um pouco mais de 800 metros intermináveis deste sacrifício! Ao final desta montanha, estávamos literalmente nas nuvens, pois a neblina encobria toda a vista.

Tinha percorrido apenas cerca de 2km, e já estava muito desgastado!

Continuamos a prova. Pela frente agora tínhamos uma bela descida. Embora a tentação fosse grande, segurei um pouco o ritmo neste trecho, por não estava 100% fisicamente e também porque aprendi que em corridas como estas, utilizamos as descidas para descansar. Elas são cruéis, pois forçam muito nossos joelhos e articulações.

Assim a prova foi se desenvolvendo, entre trilhas, mato, subidas e descidas leves e íngremes.

Lá pelo km 7, vinha trotando numa subida leve quando me deparo com um cidadão pra lá de cansado e andando. Quem era? Ele mesmo, o Luiz! O mesmo que já me ajudou tanto.

Passei por ele e disse: “Vamos, Luiz!”

Ele respondeu: “Vamos nada! Você está com 21k a menos do que eu. To exausto! Segue sua prova.”

“Não, vou contigo”, Respondi.

“Tá maluco? Vai ferrar sua prova! Vai lá, segue pois eu to muito cansado!”

“Cara, você já me ajudou muito em vários momentos. Você acha que agora vou deixar meu amigo em dificuldades na mão? Dane-se a minha prova e meu tempo! Vamos juntos no seu ritmo. Vamos chegar juntos.”

E foi assim que abri mão do meu tempo. Afinal, o que são 10 ou 15 minutos a mais? A corrida nos ensina muito mais do que isso.

E assim seguimos. Entre corridas, trotes, caminhadas, fazendas, mato, trilhas, subidas, descidas, conversas, desabafos, histórias, lamentações e muitas risadas.

Próximo à terceira transição, km 11 pra mim e 32 pra ele, pegamos um trecho plano em terra batida aonde conseguimos dar uma esticadinha e fazer um pace de 6 pra 1. Fizemos isso para compensar, pois planejávamos parar na transição para comer uma paçoca, reabastecer nossa água e pegar um isotônico.

Ao chegarmos ao ponto de transição, me deparei o segundo erro grave da organização.  Não tinha mais isotônico e nem paçoca. Erro gravíssimo, de uma prova que custa tão caro! Reabastecemos nossa água e partimos para a última perna da nossa aventura.

Corríamos na terra em direção à Praia Rasa, quando passou por nós um corredor que também estava fazendo a maratona completa assim como ele. Luiz me olhou, e disse que aquele cara estava “na mesma merda” do que ele. Hora ele passava por ele, hora ela era ultrapassado.

O amigo percebeu que falávamos dele, e com muito bom humor disse: “É, amigo! Estamos na mesma merda mesmo. Mas vamos seguindo. É a primeira vez de vocês aqui? Então prestem atenção que vou dar umas dicas!”

E assim seguiu dando suas dicas enquanto chegávamos perto da praia.  Logo, diminuiu seu ritmo e começou a andar.

“A gente se vê mais tarde. Podem ir que vou dar um tempo.”

E assim fomos.

Chegamos à praia, e conforme a dica do nosso amigo, fomos correndo pela grama que ficava após a areia fofa, aonde o terreno era um pouco mais duro. Como alegria de pobre dura pouco, logo essa grama acabou e tivemos que ir correndo pela pequena faixa de areia fofa e dura que nos restava. Eu, inocente, tentava desviar das ondas para não molhar meus pés. Não fazia noção do que me aguardava mais a frente.

Bom, a areia acabou! Havia um muro de uma casa aonde a água do mar batia direto. Fomos com água na canela. Como sempre pode piorar, na hora em que eu passava veio uma onda e bateu bem forte no muro. Entrou água até na orelha. E ainda iria piorar!

A esta altura, nosso amigo das dicas o tempo todo encostava na gente, conversava um pouco e voltava a caminhar.

Seguimos pela praia rasa, intercalando areia fofa, dura e água na canela.  Andávamos e corríamos, já bem desgastados, quando o que vimos pela frente foi bem surreal.

Não vou escrever. Os vídeos abaixo explicam melhor:

 

 

 

 

 

Após esta breve, porém interminável, caminhada com água na cintura, saímos de Manguinhos e fomos em direção à Praia da Tartaruga.  Já estávamos no km 19 e eu pensava que como estava acabando não poderia piorar.

Mas é claro que pode!

Depois de mais um trecho de “natação”, chegamos a umas pedras bem escorregadias e cruéis. Como o nome da praia sugere, fomos em ritmo de tartaruga. Pisando de uma em uma, para ver aonde tinha limo e não cairmos feio. Que esforço, meu amigos!

Terminamos o “caminho das pedras perigosas”, e chegamos quase ao final da praia. Era o km 20 e lembro-me de ter gritado bem alto “Falta só um km!” Aquele grito animou a mim e aos outros competidores.  Agora acabou não tem como acontecer mais nada.

E tinha…

O último desafio. As pernas já estavam bambas e o corpo pedia um tempo quando vimos a última subida. Subida não, penhasco! O nível era tão hard, que havia um funcionário da organização para nos ajudar a subir. Sem ele, acho que estaria lá até agora. Aquilo ali foi muita crueldade, o tiro de misericórdia!

Bom, depois disso foi só felicidade! Entramos na praia do centro e já conseguíamos avistar ao fundo a aglomeração da chegada.

Só pra ser um pouco mais cruel, o Luiz resolveu dar um sprint final nos últimos metros. Eu, obviamente tive que acompanhar! Não ia fazer feio logo na chegada, né!

Perto de cruzarmos o pórtico final, dei uma olhada para o lado. Luiz estava me olhando e falou:

“Cara, muito obrigado!”

Nem precisava falar, pois o seu olhar já dizia tudo. Dei-lhe os parabéns, apertei sua mão e seguimos para cruzar a linha de chegada juntos.

Três horas, quatorze minutos e onze segundos após iniciar minha jornada pelas areias de Tucuns eu chegava ao meu destino final. O tempo foi sim, maior do que o esperado. Mas nem por isso minha conquista foi menor. Venci um desafio e tanto!

Ah, e esse esforço final quase me fez vomitar! Faz parte, vida que segue!

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Luiz e eu após a chegada. Apesar das dores, o sentimento é de felicidade pela meta alcançada!

A conclusão que cheguei, é que realmente esta prova não é para qualquer um. Eu, que já corri maratona e me preparei muito bem simulando diversas situações da prova nos treinos, e fiz apenas a metade, senti bastante.

O Luiz achou que esta corrida, embora tenha 10k a menos, foi mais difícil e dura do que a  prova de Urubici que ele fez em Maio. E olha que lá eram 52k, sendo a metade de subida sob um frio que beirava zero grau!

Então amigos, não se arrisquem em uma prova dessas se não estiverem muito bem treinados!

Espero que tenham gostado.

Abraços e boas corridas!

OBS 1: A organização falhou mais uma vez na chegada! Não tinha isotônico, e o prometido açaí também havia acabado.

OBS 2: A Duda conseguiu resolver o lance da chave do carro! Chamou o seguro e não gastou um real! Foi me pegar na chegada e me recebeu com o sorriso mais lindo do mundo. Por isso casei com essa mulher!

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Minha grande parceira! Como não amar esta mulher?!

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